domingo, 21 de março de 2010

DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM





1. AS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM NUM TEMPO HISTÓRICO


Muitos autores escreveram sobre o tema Dificuldades de Aprendizagem (DA), considerando-se que a partir do século XX, os problemas de aprendizagem se tornaram evidentes e quase sempre resultando em fracasso escolar. Portanto, podemos dizer que o fracasso escolar é uma idéia moderna, mas isso não significa que todas as crianças aprendiam na escola até esse período. Pelo contrário, se situarmos o ensino num tempo mais distante, a história nos mostrará que antigamente nas civilizações medievais a educação era exclusiva dos nobres, que contratavam os preceptores para ensinar as crianças a ler e a escrever, enquanto os pobres eram privados desse saber.

A princípio o conhecimento da escrita é bastante restrito, devido ao seu caráter sagrado e esotérico. Com o tempo, aumenta o número dos que procuram instrução, embora apenas os filhos dos privilegiados conseguissem os graus superiores. Tem início então, o dualismo escolar que destina um tipo de ensino para o povo e outro para os filhos dos funcionários. A grande massa é excluída da escola e restringida à educação familiar informal (ARANHA, 1998, p. 33).



Figura 1: A escola da Nobreza (HARPER, 1989, p. 26).


A verdade é que desde que os alunos da classe menos favorecida deram início à vida acadêmica as desigualdades surgiram, pois a estrutura escolar separava os alunos desde seu ingresso, ou seja, às crianças das famílias ricas eram destinadas às classes dos liceus1, enquanto a maioria dos alunos freqüentava a escola primária (PERRENOUD, 2001).
Isso significa que os filhos da burguesia entravam aos 6 ou 7 anos nas primeiras classes dos liceus e já estavam prometidos aos estudos completos, enquanto as outras crianças iam a escola primária para sair dela aos 11 ou 13 anos com uma instrução mínima (PERRENOUD, 2001).
No Brasil a educação no Império por volta de 1834, procurava resolver problemas imediatos, sem encará-los como um todo e podemos citar como exemplo o momento da chegada da família real ao país, no qual o rei foi obrigado a criar escolas, pois até o momento existiam apenas as insuficientes aulas regidas do tempo do Pombal. De modo geral, pode-se dizer que nessa época ainda não havia uma política de educação sistemática e planejada.

Sem a exigência de conclusão do curso primário para o acesso a outros níveis, a elite educa seus filhos em casa, com preceptores. Para os demais segmentos sociais, o que resta é a oferta de pouquíssimas escolas cuja atividade se acha restrita à instrução elementar: ler, escrever e contar (ARANHA, 1998, p. 155).

A partir do final do século XIX com a implantação da “escola para todos”, a máscara do sistema educacional começou a ser desvendada e a partir de então ficou clara a existência do fracasso e estudiosos começaram a pesquisar as causas do não aprender.

A escola desde o século XIX tornou-se uma atividade obrigatória, e desde então, a escolaridade passou a ter um papel fundamental para a ascensão social. A partir deste período, as dificuldades escolares e os seus fracassos passaram a ser considerados como um problema importante ou até mesmo uma doença (TOPCZEWSKI, 1999, p. 15).

Alguns autores como Durkheim defendiam a idéia que uns nasceram para refletir, enquanto outros para realizar o trabalho braçal, e por isso justificavam a importância de um sistema dual de educação, ou seja, esse sistema refere-se a dois tipos de educação: uma voltada para a reflexão e outra à instrução para o trabalho.
Segundo Durkheim apud Pereira & Foracchi “nem todos somos feitos para refletir; e será preciso que haja sempre homens de sensibilidade e homens de ação e inversamente, há necessidade de homens que tenham como ideal de vida, o exercício e cultura do pensamento” (PEREIRA & FORACCHI, 1997, p.35).
Ao analisarmos esse pensamento podemos verificar que o fato de algumas crianças não obterem sucesso na escola era considerado normal e decorrente de um processo natural da sociedade, pois a educação cabia fazer essa seleção, classificando a minoria que comanda e a maioria que obedece e executa as ordens.
Quando estudamos historicamente o desenvolvimento dos sistemas de educação, de acordo com PEREIRA & Forachi (1997), pode-se afirmar que eles estão interligados à religião, organização política, o avanço da ciência e da tecnologia. Neste sentido, se separarmos todas essas causas o entendimento será impossível, por isso faz-se necessário conhecê-las e analisá-las num tempo histórico.
Durkheim citado por Pereira & Foracchi (1997) afirma ainda que para encontrar um tipo de educação absolutamente homogênea e igualitária, seria preciso remontar até as sociedades pré-históricas, para extinguir qualquer tipo de diferenciação. O autor também coloca que “ainda que a consciência moral de nosso tempo tivesse recebido, acerca desse ponto, a satisfação que ela espera, ainda assim a educação não se tornaria mais uniforme e igualitária” (p. 40).
A produção dessas diferenciações gerou um dos maiores problemas que estamos enfrentando na atualidade: as desigualdades sociais, que por sua vez acabam culminando em uma série de problemas gritantes e calamitosos. Diante disso, é preciso reconhecer a importância da educação na organização social e para tanto torna-se indispensável começar a utilizá-la em favor das mudanças necessária para transpor esses conceitos ultrapassados e que não são mais aceitáveis na situação atual.
Analisando a história da educação desde as sociedades mais antigas é possível notar que as dificuldades de aprendizagem acompanham a vida escolar de muitos alunos e na maioria das vezes essas dificuldades são fundamentais para determinar se a criança terá ou não sucesso na escola.
Frente a isso, a escola tornou-se um mundo isolado e distante da realidade de muitas crianças, principalmente daquelas que não conseguem acompanhar os rendimentos esperados.





Figura 2: Um mundo à parte: fechado e protegido (HARPER, 1989, p. 42).





Fonte: JANUCCI, M. Z. Trabalho de Conclusão de Curso: “Dificuldades de Aprendizagem: problema ou desafio para a prática docente?. São José do Rio Preto, [s.n.], 2006.

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